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João Donato e o quase não-lançado disco "Gozando a Existência".

João Donato, caso você não conheça, posso apresentá-lo com tranquilidade como um dos maiores compositores do Brasil. Se houvesse um Olimpo deles, Donato estaria lá. Integrante da segunda geração da Bossa Nova, dono de uma estética única e de um piano marcante. Vi, em uma matéria perdida na memória, que ele foi responsável por incorporar a musicalidade afro-cubana ao jazz no Brasil. O que faz absoluto sentido, basta ouvir ele tocando suas próprias músicas.



A história que quero contar aqui, começa em 1977. Donato tinha o sonho de fazer um disco experimental, reunindo vários de seus parceiros, músicos e compositores. De surpresa, no mesmo ano, recebeu uma ligação de Suzana, filha de Vinícius de Moraes, dizendo: “Ó, o Menescal está oferecendo o estúdio de graça e com os técnicos. Os músicos a gente resolve”. O compositor primeiramente negou, acreditando que ninguém iria - talvez pela falta de recursos financeiros. Porém Suzana retrucou: “O que? Todo mundo vai! Já falei com um pessoal…”


Nelson Motta, consagrado jornalista e produtor musical, anuncia logo no O Globo: “Por conta própria, João Donato grava um álbum triplo, chamado “Gozando a Existência”, com a participação de alguns dos maiores intérpretes e músicos que se tem notícia na música brasileira”. As gravadoras começam uma disputa, antes de ouvirem o resultado, para lançarem o disco.


Acontece que esse “um pessoal”, que confirmou de prontidão a participação nas gravações, eram nada mais nada menos que: Dominguinhos, Quarteto em Cy, Jackson do Pandeiro, Dori Caymmi, Paulinho Jobim, Telma Costa, Guarabyra, Nelson Angelo, Novelli, Djavan, Rosinha de Valença, Gal Costa, Vinícius de Moraes, Beth Carvalho, Miúcha, Nara Leão e mais um pá de gente, anunciada por Nelson Motta no jornal. Além dessas, haviam outras pessoas que não foram listadas pelo jornalista, na época, como Djalma Correa, Marku Ribas, Erasmo Carlos e Orlandivo.


João Donato e Gal Costa

O estúdio sempre estava lotado! Todo mundo aceitou tocar e as gravações viraram uma grande festa. João Donato geralmente dava o tema e cada qual tinha absoluta liberdade para fazer o que bem sentisse. A música que dá título ao disco, por exemplo, levou vinte e seis minutos e foi gravada sem cortes.


O resultado disso, como Nelson anunciou, daria um disco triplo que, sem dúvida, seria um dos mais importantes da história da MPB. Um amálgama de arranjos e composições, orquestrados pelo Donato, dos principais músicos do Brasil (da época e de sempre).


Porém quando a Phonogram e outras gravadoras que disputavam o lançamento ouviram as fitas, não aceitaram. Pelos nomes que participaram, estavam esperando algo comercial, que fosse sucesso de vendas, ao invés disso, classificaram como “experimental”, “extraordinário” e “exótico”.


Donato disse que rapidamente deixou o projeto de lado. Eu ficaria revoltado (risos), mas o compositor, como é de se imaginar, levou tudo na tranquilidade - Daquele jeito, leve e suave, Donato de ser. Anos depois lançou seus próximos discos. “Gozando a Existência” tinha ficado na memória.

João Donato, durante as gravações de "Gozando a Existência"

Só em 2018, o produtor musical e escritor, Marcelo Fróes, junto do Instituto João Donato e o selo Discobertas, tiveram a genial ideia de retomar essa história. Fizeram um resgate de tudo o que havia restado das gravações de 1977 e lançaram o disco de mesmo nome. Acontece que muitas fitas se perderam de lá até este lançamento, inclusive as fichas técnicas. Em algumas canções, não se sabe quem está tocando o que, nem os próprios músicos que participaram lembram.


A beleza de “Gozando a Existência" (2018), mesmo lançado quarenta anos depois e “incompleto”, é maravilhosa! São nove músicas com aquele tipo de arranjo que dá pra imaginar o prazer de tê-los tocado durante as gravações. Um disco feito com prazer, gozando a existência mesmo, não poderia ter outro título.


Particularmente, fico encantado com a história, mas me chega com tristeza. Porém, Marcelo é otimista e tem razão. Escreveu uma vez que até o não-lançamento do disco (em 1978) foi importante. Pois liberou algumas composições que estariam nele para o repertório do clássico “Clube da Esquina 2”, que Milton Nascimento gravou e lançou no mesmo ano, inclusive com participação de Donato.


O projeto gráfico do álbum não ficou para trás. Elaborado por Bady Cartier, a designer recuperou fotografias da época, de encher os olhos. Deixou o disco deslumbrante, simples e profundo, como as músicas do Donato. Quando adquiri o meu, tive vontade de dormir abraçado com ele (risos) - é verdade!


João Donato, sempre com esse sorriso | 2019

Eu acho impossível dizer qual meu disco predileto dele. Donato sempre foi e continua sendo inventivo e moderno. Tudo dele é novo, soa como descoberta. Agora, imagine só: gravações de quatro décadas atrás, lançadas apenas em 2018, ainda soaram como sons novos. É impressionante! Sugiro imensamente você separar um tempo para ouvi-lo em alguma plataforma de streaming, ou melhor, adquirir o seu - lindo - álbum físico.


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