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Discos que amei: Eliel Carvalho

Discos que amei é uma publicação onde conversamos sobre trajetos afetivos, processos de criação e tudo o que a música pode nos proporcionar. Todo mês entrevistamos um convidado diferente para compartilhar com a gente um pouco da sua história com a música.


Hoje contamos com a participação super especial do músico, compositor e ator, Eliel Carvalho. Ele nos fala sobre o início da sua trajetória dentro da música até a entrada no grupo de teatro Pavilhão da Magnólia, atual e principal trabalho.


Boa leitura! :)


 


Eu estava mais assustado no início do isolamento porque não sabia como iria ficar trancado em casa, sem poder sair e trabalhar, fazer as coisas normalmente...

Com o tempo, fui me acalmando mais. Procurando colocar a cabeça pra produzir alguma coisa, mas sem me cobrar tanto. É importante também desproduzir. E não ficar com aquele pensamento de “ah, eu não to fazendo nada…”.



No Grupo (Pavilhão da Magnólia) e na Casa Absurda (sede do Pavilhão e da Cia. Prisma) nós temos feito algumas atividades, virtualmente, então tem dando uma animada, tem gerado trampos pra fazer lives e essas coisas. Estamos estudando esse formato virtual, que pra gente é muito novo. Não é como o teatro, é outra coisa que a gente precisa se adaptar pra isso.

Em relação a música, eu tenho feito umas composições com o Jefferson Tinôco. Ele sempre me manda umas letras e eu vou musicando. Durante o isolamento, estamos conseguindo gravar pra mandar pra festivais e editais culturais. Daqui a pouco vamos lançar um single, estamos resolvendo a pós-produção. O Jefferson também tem um projeto que quer tirar do papel, chamado Projeto Café. Estamos estudando como acontecerá, desde antes da pandemia. Estamos vendo a possibilidade de fazer no Youtube, com convidados e composições autorais. Acho que vai rolar.

E você tem escutado que tipo de música nesse tempo?

Esses últimos dias eu voltei a ouvir “O terno”. Fazia tempo que não escutava. As vezes uma música lá outra cá. Comecei a notar as singularidades de cada disco, basta ouvir uma música e você já identifica, já vê a cara do disco. Eu tava assistindo eles no Cultura Livre com o último álbum (Atrás / Além) e a Roberta Martinelli fala sobre o quanto eles vão aumentando a bagagem deles de um disco pro outro. Eu super vejo isso também. Agora to ouvindo eles pra me inspirar pra compor.

Além de estar fazendo projetos com o Jefferson Tinôco, to compondo pro pessoal do Cheiro do Queijo e fazendo parcerias com o Arnaldo Moura. Uma delas é um retorno ao pagodão e a swingueira, que foi onde começou fortemente a minha relação com a música, no Maracanaú.


Comecei a tocar violão mais ou menos aos 10 anos. Eu não era nem geração cifra-club ainda. Eu ficava assistindo os clipes da Tv União e tentava pegar as músicas de ouvido. Não tinha nem MTV em casa. Linkin Park, System of a Down, Creed, Bon Jovi, Guns & Roses, eu ouvia tudo isso.

No início foi meu irmão que tentou aprender violão junto com os amigos dele. Eu, como irmão caçula, ficava olhando e tentando aprender quando mexia no violão. Desde os 6 ou 7 anos eu já pensava em ser cantor ou músico, mas achava um sonho impossível.

Eu sempre gostei de todo tipo de música, claro que alguns estilos me influenciam mais que outros, mas sempre ouvi de tudo. Na minha família, a galera ouvia muito sertanejo, tipo Xitãozinho e Xoróró e Zézé de Camargo e Luciano. Quando criança eu gostava muito. Hoje eu condeno um pouco porque entendo algumas questões de mercado cultural e não concordo com algumas coisas. Mas assim, a Tv União, com uma pegada mais Rock e mais Pop, foi um marco, uma escola.

Aos poucos fui me dedicando mais ao violão, mas sempre como uma brincadeira, uma coisa divertida e gostosa de ir aprendendo. Eu não tinha acesso a internet, em casa, na época. Eu gostava de ir na lan house pegar algumas coisas de cifra, de letras e ficava comparando com o jeito que eu tinha aprendido sozinho. Comprava muito também aquelas revistinhas de banca que ensinavam a tocar a música. Com essas coisas, fui desenvolvendo conhecimentos mais avançados de teoria musical, mas ainda hoje sei pouco, sou bem mais prático. Não achei que seria músico, só queria tocar.

Acho que no processo de ouvir pra aprender a tocar, consegui desenvolver o canto. Porque eu já consigo identificar a afinação dos instrumentos e da minha voz.

Como essa brincadeira virou uma profissão?

A galera da minha rua, aqui no Maracanaú, teve uma ideia de montar uma banda de swingueira, pra tocar músicas tipo do Fantasmão e Psirico (risos). Não era algo que eu escutasse, mas eu gostei da ideia. Era o auge da swingueira, todo final de semana tinha festa na rua, tinham muitos grupos de música e de dança.





Nós iniciamos os ensaios e comecei a tocar baixo, porque era um instrumento que eu achava lindo em todos os estilos de música. E o baixo no pagodão é bem forte. Além da afinação ser bem parecida com a do violão. Fui aprendendo a tocar e começamos a circular pelo interior vendendo o projeto pra casinhas de show.

Nessa época eu tinha 17 anos, era 2009, a gente queria tá produzindo. Não era algo de alto nível profissional, mas tinha produção que foi aprendendo junto com a gente, tinha cachês e teve algo muito importante que foi a convivência com o grupo. Todo mundo fazia de tudo, era bem horizontal. O nome da banda era o pior de tudo: “Skovasamba” (gargalhadas). Todas as bandas tinham um nome estranho. Inclusive, nossa inspiração eram uns nomes que apareciam naquele bate-papo que a gente participava por sms da Tv União (gargalhadas). Nós encerramos o grupo em 2012, teve uma boa longevidade.




Em 2013 eu estava terminando o ensino médio e eu tava num período que eu achava que seria humorista (risos), eu gostava muito de imitar a galera, adorava os Barbixas e tava querendo fazer teatro pra trabalhar isso. O Pavilhão da Magnólia veio pra Maracanaú fazer um curso de teatro com o Grupo Garajal, no final teria montagem de um espetáculo. Eu fiz o Curso com o Abu (Igor Cândido) e montamos “O Palácio dos Urubus”. Nessa época, não passava pela minha cabeça compor uma trilha sonora para um espetáculo.

Eu usava a música como mais um recurso. A gente montava um exercício e eu sempre tocava o trecho de uma música, de forma natural. Depois é que eu entendi que poderia compor uma trilha. E até hoje eu não fiz nada sozinho, sempre fui compondo com outras pessoas.

A tua entrada no Pavilhão foi com esse espetáculo?

Então, não! Depois de um tempo o Pavilhão passou por modificações. Alguns integrantes foram morar fora e precisaram sair do grupo. Nesse período o Nelson (Albuquerque) me chamou pra fazer uma substituição no espetáculo “Pétalas”, que era a Paixão de Cristo do grupo. Foi bem legal porque eu tinha que tocar sanfona e eu não sabia, aprendi só por conta da peça. Consegui me encontrar com o antigo músico e ele me passou a trilha todinha. Então essa experiência no grupo foi uma escola pra mim. Adorava viajar com o grupo.





Quando acabou a circulação desse projeto, eu continuei indo visitar o grupo. As vezes nem tinha o dinheiro da passagem, usava um “passe-card hackeado” (gargalhadas) pra ir pra Fortaleza só ficar olhando os ensaios. Era uma coisa que me chamava demais. Ficava assistindo o processo de montagem do “Baldio”. Até que um integrante do grupo precisou sair porque tava atrás de um emprego mais formal, ai o Nelson me chamou pra fazer parte da peça, eu já tava lá (risos). Até hoje, no Pavilhão da Magnólia, todo mundo que entra é assim. São pessoas que sempre tão ali. Ai a gente faz questão de trocar com essas pessoas.

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