Itaperi Discos

Discos que Amei: Albano Seletor

Discos que amei é uma publicação onde conversamos sobre trajetos afetivos,

processos de criação e tudo o que a música pode nos proporcionar. Todo mês entrevistamos um convidado diferente para compartilhar com a gente um pouco da sua história com a música.


O convidado desta edição é um dos Dj's mais importantes de Fortaleza, Albano Seletor. Ele nos conta como surgiu a paixão pela música, pela discotecagem e algumas histórias

super divertidas da sua infância durante sua pesquisa por sons.


Boa leitura! :)


 

"Fazia muito tempo que eu não me dedicava tanto a ficar em casa. Infelizmente está sendo de um jeito muito punk. Acho muito autoajuda ficar falando que é bom, que a quarentena trouxe coisas boas. Na verdade está sendo uma grande droga..."

....mas claro que tem momentos bons e algumas ideias boas


Já tem 10 anos que eu toco. Quando comecei, só tocava as músicas que eu conhecia bastante, durante uns 4 anos pesquisei muito pouco. Ia comprando discos e acrescentando o que ia ouvindo no meu set. Com a pandemia, descobri que tenho um monte de disco em casa e percebi que seria legal voltar a “não pesquisar”. Claro que isso é uma pesquisa, mas é diferente. Eu escuto a coisa, ela bate em mim. É o contrário de sair procurando coisas pela internet e ir acumulando músicas que se parecem. Eu tava me achando chato, fazendo isso. Então to encarando a pandemia assim: redescobrindo meu set e fazendo lives.

Descobri um set brega durante esse tempo que, sinceramente, não sei o que vou fazer depois da pandemia com ele. Foi uma seleção que montei com os discos que tenho e que achei muito bacana. Eu gosto de música brega, mas nunca toquei. E essa seleção montei assim, nessa “não-pesquisa”.

Estou redescobrindo esse prazer de estar em casa ouvindo música. Quando comecei a tocar, o Dj Guga de Castro me falou: “Cara, só tem uma coisa ruim, quando tu virar Dj, tu não vai mais conseguir ouvir um disco todo nunca, porque não vai ter tempo”. Eu passei por muitos anos assim. Agora é que eu voltei a escutar um disco todo.





Tem músicas que descobri na internet e nunca ouvi o disco todo, isso é criminoso, criminoso não, mas é horrível pra mim. Porque tu acaba apenas com um monte de mp3 no teu computador. Antes eu era bem mais atencioso, tocava a música e conhecia o disco, gostava.

Quem me fez Dj foi minha ex-esposa. Eu sempre toquei em festinhas de amigos, mas quando a gente casou, nossa casa tinha uma tradição de festa de réveillon que era bem disputada. Eu tocava nessa festa, assim que acabava a festa da Beira-mar. Isso era entre 2008 e 2009. Colocava as músicas com Cds e fitas.


Eu tinha um som que tocava essas duas mídias e ia intercalando para a música não parar. Até porque eu não tinha controladora, nem sabia o que era isso. Uma dessas pessoas que frequentavam essas festas, me chamou para tocar em um carnaval em guaramiranga. Eu fui e, depois disso, comecei a fazer outras festas. Eu gravava os cds com mp3, fazia uma espécie de coletânea em cada Cd. As vezes levava um Cd original mesmo e fita k7 também.





A minha ligação com a música se deu na rua mesmo, com os amigos do colégio, nos anos 1980, quando criança, e adolescente nos anos 1990. A gente sempre conversava sobre discos e músicas, no auge do rock brasileiro. Nós fomos muito contaminados por isso. As primeiras bandas que viraram minha cabeça, por exemplo, foram Titãs e Engenheiros do Hawaii.

Eu juntava o dinheiro da merenda, quando tinha, pra comprar ficha de telefone e pedir música na rádio pra gravar as minhas fitas. Por sorte eu tinha um orelhão do lado, porque na época a gente não tinha telefone em casa. Então eu ligava pro programa e corria pra fazer a gravação. Enquanto isso rezava pra minha mãe não pedir para eu ir na bodega. Porque ela não entendia essa relação séria com a música e as vezes essa merda acontecia. Era triste. Mas é muito bom lembrar disso, eu me vejo na frente do som lá de casa. quase todo dia era essa rotina.

Meu irmão fazia também umas festas na nossa casa e ele tinha vergonha de mim porque eu era pivete. Ele me chamava pra essas festas só pra colocar o som. Era muito legal porque ele tinha essa vergonha, mas adorava as músicas que eu colocava. Desde cedo eu tive esse interesse por música. A minha casa não era musical, tinham, no máximo, uns dez discos do meu pai. Eu lembro que tinha Roberto Carlos, Novos Baianos e não lembro mais o resto.

Com o tempo fui acumulando essas fitas que gravava e tocando nas festas do meu irmão. Tocava para poder participar e em troca de bebida, até hoje é assim, né?! (risadas). Eu adorava o ambiente, estar com adultos... Com o tempo as festas começaram a ter bandas eu fazia a abertura. Era a coisa mais importante pra mim, eu levava muito a sério. Era uma galera muito mais velha do que eu e que, a princípio, nem falavam comigo na rua porque eu era o irmão caçula. Eu não tinha nem nome, era o “Irmão do Bodão”, que é o apelido do meu irmão. Eu sentia muito prestígio por estar tocando pra eles.




Nós mudamos de casa e fomos para uma nova rua. Ali tinham uns caras mais velhos que meu irmão. Eles andavam em baile funk, curtiam A-ha. Nessa turma tinha o Alex, ele entendia muito de som. Teve um tempo que eu consegui pular a turma do meu irmão para andar direto com essa galera. Eu mudei de turno na escola porque repeti de ano, fui para a tarde, e coincidentemente comecei a pegar os mesmo ônibus que esses caras. Quando eles descobriram que eu gostava de música bacana, eu fui convidado a ser brother deles. Ai eu entrei de vez na boêmia. Isso era 1992 pra 1993.

Eles regravam a minha bebida, não era tão liberal assim, porque eu era muito novo. A gente fazia isso na calçada. As vezes a mãe do Alex ia lá e me expulsava porque eu era realmente uma criança. Mas o meu maior interesse neles era a música, não era pela bagunça. Com eles foi a primeira vez que ouvi The Doors, A-ha, Iron Maiden e diversos outros sons além do rock nacional. Alguns deles eram bem de vida e tinham muitos discos. Eles me emprestavam alguns. Foi assim também que ouvi Beatles e Pink Floyd.

Na nossa época, quem tinha muitos discos era gente “estribada”. Eu gastava todo meu dinheiro com gibis e, as vezes, conseguia um disco. O primeiro que eu comprei foi uma coletânea do Dire Straits, a “Money for Nothing”. De vez em quando eu até entro no youtube e vejo o comercial do disco, só pra matar a saudade daquela época. Eu lembro que comprei na Tok Discos, na esquina da Praça do Ferreira. Foi minha primeira viagem solo de ônibus, no centro da cidade. Quando eu cheguei em casa eu me senti até poderoso, era outro cara (risadas). Nesse mesmo ano eu devo ter comprado, no máximo, uns cinco discos.




O ano 2000 foi um ano que eu me empolguei muito pra colocar músicas em festas. Foi quando eu fiquei amigo do Dj Marquinhos e do Guga de Castro. Eles sempre diziam que eu devia virar Dj. Na Farra na Casa Alheia, festa deles, sempre deixavam eu entrar de graça pra ficar do lado deles. Mas eu ficava acanhado pra tocar pra muita gente. Com o tempo eu fui perdendo o medo.


A primeira festa grande que toquei foi no casamento de um amigo. Ele dispensou o Dj do Buffet e pediu que eu tocasse. Eu avisei que não sabia mexer e nem tinha equipamento. Ai ele me fez chegar bem mais cedo pro cara do buffet me ensinar a usar uma CDJ. Foi a primeira vez que usei um equipamento. O evento foi muito bom, a partir disso eu me senti preparado para outras. No começo você tem muito medo de ser julgado, de parecer estranho. Depois comprei uma controladora, fui treinando e “meti as caras”.

Posts recentes

Ver tudo