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Adriana Martins: "Belchior morreu e as palavras que vão ler sobre isso serão as minhas".

Adriana Martins é Jornalista e trabalhou durante dez anos como Jornalista Cultural no Diário do Nordeste, um dos principais veículos de comunicação da Região. Foi de repórter a vice chefe de redação do Caderno de Cultura do jornal. Durante a conversa que tivemos, sobre sua trajetória e a música, ela contou experiências incríveis, incluindo a cobertura da morte do cantor e compositor Belchior. Você acompanha a seguir:




"Foi um privilégio, não é fácil trabalhar por tanto tempo nessa área."


"Quando entrei no Jornal, já tinha a música como algo muito próximo. Se não me engano, o meu teste de admissão foi escrever uma pauta para um show de um artista local, acho que do Marcos Café (Cantor, Intérprete)".


Ela continua: "Na verdade parece que trabalhei uma centena de anos no Diário. O tempo todo tínhamos mudanças do cenário, mudanças drásticas. Em termos de logística de produção, principalmente."


Adriana explica que, no início da sua jornada, em 2008, a equipe cultural era bem maior, ainda com setoristas: pessoas que escrevem, por exemplo, só sobre música ou sobre teatro, etc. Pessoas especializadas em uma determinada linguagem.


"Hoje eu não conheço mais jornalistas setoristas. Quem ficou, precisa escrever sobre tudo. E, além disso, para todas as mídias que o jornal ocupa. Eu peguei essa mudança, ela é bem profunda e de extrema dificuldade."


Nesse período, a Jornalista afirma ter tido o privilégio de sempre trabalhar com música, embora não fosse sua especialidade: "Sempre procurei me pautar nisso, quando repórter. Depois que virei editora, eu entendi ainda mais que, se você não se pauta, você é pautado. Eu recebia matérias sobre discos que foram lançados, por exemplo, e já colocava a pauta na mesa para vendê-la."


Adriana diz que a música sempre a acompanhou. Mas profissionalmente a relação foi ficando bem mais interessante: "Ouvir música por prazer é uma coisa, por trabalho é outra coisa. Você tem que escutar com um olhar mais crítico e atento. Eu acho ainda bem difícil de escrever sobre, porque não sou musicista ou especialista."


"Tive um chefe, durante muito tempo, que também não era músico, porém era a pessoa que melhor escrevia sobre música que eu tive o prazer de ler e trabalhar."


Ambos concordamos que, quando você vai escrever, você tem que ter muitas referências e entendimento do que está falando. Se for sobre uma banda, tem que saber sobre os discos que já lançaram, que tipo de som fazem, quais as referências deles (ou delas). Adriana diz que, por isso, trabalhava três vezes mais que um especialista, mas escrevia muito bem: "Tenho um bom texto. É possível escrever sem ser especialista, você só trabalha mais."


"Uma vez eu tive que escrever sobre o disco do Interpol, um lançamento. Fui lá catar o que estavam dizendo do disco, resenhas gringas, etc. Em uma das críticas eu li: “guitarras angulares”. Eu parei e fiquei pensando, “como é que a pessoa consegue classificar o som o Interpol em duas palavras?”, era exatamente aquilo! "





De fato, a escrita, o jornalismo cultural é uma arte muito bonita. Nós começamos a conversar entusiasmados sobre o quanto é bom encontrar textos que te fazem decidir ouvir um álbum, conhecer um artista ou ler um livro por conta da boa escrita dos autores. Adriana, nessa hora, fala que é uma das coisas que dá saudade da redação do jornal. E que, sempre que sentava pra escrever alguma coisa, dava um frio na barriga pensar que seria lida por uma ou várias pessoas.


"Ser lido é um privilégio" - diz Adriana.


"Escrever um texto que as pessoas tenham interesse de ler por espontânea vontade, ainda mais hoje, é uma vitória", afirma a Jornalista, e continua: "O tempo é muito concorrido. É difícil prender a atenção de um ser humano para ler o que você tem a dizer. Além de produzir um conteúdo bom, você tem que ter um texto bom!"


Perguntei se tinha lembrança de alguma matéria que deu um frio na barriga mais forte do que nas outras, ela respondeu:


"Eu lembro que, quando o Belchior morreu, eu estava de folga. Mas, claro, fui correndo para a redação. Equipe do Jornal ficou toda mobilizada e eu escrevi o texto de abertura da matéria, era bem grande, página inteira. Como sempre, foi difícil! É super gratificante, mas sofrido. E aí eu fiquei olhando a página diagramada, depois de tudo pronto fiquei pensando: Poxa, o Belchior morreu e as palavras que as pessoa vão ler sobre isso - pelo menos neste veículo - serão as minhas. É uma responsabilidade!"





Teve uma outra matéria, que Adriana relembra, sobre pessoas que tiveram as vidas diretamente transformadas pela música. Eram de origem humilde e fizeram curso em alguma ONG e hoje estão em um alto patamar. "Quando ficou pronta, eu fiquei pensando: esse é o motivo do meu trabalho."


Além da relação profissional, realmente espetacular da Jornalista, quis saber como era essa relação nos momentos íntimos:


"Minha relação com a música é muito maravilhosa, eu sinto um impacto emocional e sensorial muito forte quando começo a ouvir. Eu não consigo trabalhar, estudar ou fazer outra coisa enquanto escuto música. Porque eu tenho vontade de cantar, dançar e, além disso, tenho uma facilidade de fantasiar cenários, pessoas, que nem criança. É quase como um portal que eu atravesso quando toca".


Daqui a conversa seguiu para outros caminhos. Fiquei bastante contente de conhecer um pouco da relação dela com a música, profissional e pessoal (íntima). Sempre que convido pessoas para conversar sobre o assunto e publicar aqui no site, o faço com critérios mais afetivos do que profissionais, porém a conversa é sempre surpreendente. Dessa vez não foi diferente.



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