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A loucura modernista de Thelonious Monk

Thelonious Monk, jazzista norte-americano do século 20, ainda é um dos nomes mais influentes da música na atualidade. Talvez você não o conheça, mas pode apostar que ele foi um dos responsáveis pela revolução musical mundial chamada Bebop, de onde surgiram cantoras como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e compositores como: Miles Davis, Charlie Parker e J. Coltrane.

Thelonious Monk, sempre se comportava de maneira irreverente.

Na década de 1940, quando Monk se lança mais fortemente na música e grava em estúdio pela primeira vez, nosso planeta vivia uma guerra mundial. Apesar do sufoco, havia música da boa! Louis Armstrong, Glenn Miller e Billie Holiday, por exemplo, eram os responsáveis - com suas big bands - pelo entretenimento do público e da crítica musical, que não queriam saber de outra coisa, além do swing jazz desses artistas.


Thelonious, desde essa época, dizia que sempre se preocupava com o seu som. Queria fazer uma música boa e original. Teve bastante dificuldade para sair da comunidade evangélica, onde tocava em bandas, festivais e turnês de grandes cantoras, até se consolidar como compositor que foi. Não que tocar piano nessas ocasiões fosse pouca coisa, veja bem, a própria Fitzgerald surgiu ali. Acontece que ele não conseguia fazer a música inventiva que queria.


Existe até uma história engraçada, sobre esses festivais e concursos. Na adolescência, Monk chegava a ser impedido de participar do concurso de novos talentos no Apollo Theatre (um festival lendário) porque sempre ganhava. Foi exatamente em um desses festivais que a Ella Fitzgerald ganhou notoriedade. Mas o pianista, apesar de ser excepcional, ainda não conseguia se destacar publicamente da mesma forma que a cantora.


Fachada do Apollo Theater: "Onde estrelas nascem e lendas são feitas".

Em suas primeiras oportunidades para se tornar o pianista principal de clubes e casas de jazz, chegaram a oferecer 20 dólares semanais para que tocasse durante todos os dias. Era muito pouco, mesmo pra época. Alguns críticos o chamavam de louco, pois ele tinha um estilo diferente de tocar: usava os cotovelos, se levantava do piano para fazer danças esquisitas, usava boinas, toucas e chapéus, digamos, não-muito elegantes no conceito do público, era muito irreverente. E, principalmente, utilizava umas harmonias inovadoras para a época, definidas por vários jornalistas como “estranhas”.


Em 1941 ele conseguiu o emprego de pianista na banda do clube Miton’s Playhouse, cujas jams sessions (sessões de improviso) eram frequentadas por músicos como Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Bud Powell e outros que se encantaram pela maneira de Monk tocar. As noites do clube ficaram cada vez mais badaladas, contando até com participações importantes de Coleman Hawkins e Lester Young, saxofonistas já consagrados. Mas foi um caminho longo e muito consistente até que ele tivesse um maior reconhecimento.


Charles Mingus, Roy Haynes, Charlie Parker, Thelonious Monk. Essa imagem é considerada por muitos estudiosos como o registro fotográfico mais incrível da história do jazz.

Depois de alguns anos, inspirados por essas jams sessions (tanto no Miton’s Playhouse, como em outros clubes) notavelmente marcadas pela estética inovadora que monk apresentava (constituídas de harmonias bastante sinuosas e notas muito bem escolhidas) Parker e Hawkins estabeleceram os pilares do Bebop jazz. O primeiro estilo original do jazz da modernidade, que contagiou dezenas de grandes músicos da nossa história.


Porém, o pianista teve seu reconhecimento enquanto compositor somente no fim dos anos 1950. Quando finalmente aquele seu disco que falávamos no início do texto fez sucesso entre os críticos. Fez parcerias com John Coltrane, diversas turnês com outros grandes instrumentistas e, ainda em vida, chegou ao olimpo do jazz. Um dos prêmios que marcam essa conquista, foi a sua foto na capa da revista TIME, na década de 1960. Algo concedido, na época, apenas para três nomes: Louis Armstrong, Dave Brubeck e Duke Ellington.


Capa da revista TIME, fevereiro de 1964

Monk se diferenciava do bebop, estilo inspirado nele, em algumas questões, principalmente no que se refere ao virtuosismo instrumental. Portanto, ele mesmo não aceitava a paternidade do jazz moderno, dizia que sua contribuição foi “apenas” harmônica e espiritual.


“Eu não estava pensando em mudar o curso do jazz, estava apenas tentando tocar alguma coisa que soasse boa” - Thelonious Monk


O pianista morreu em 1982, aos 64 anos, depois de ter ficado isolado da música durante uma década, por escolha própria. Dizia não se sentir mais disposto. Ele chegou a anunciar nos anos 1970 sua saída de cena, mas ninguém acreditava ou ouviam aquilo inconformados. Nos últimos anos de vida, não levantava sequer da cama.


Um fim triste, de certa forma. Mas ainda é consolador estudar sua trajetória e saber que ele foi considerado, ainda vivo, um dos grandes músicos de toda a história do jazz, apesar de ter composto poucos temas. Ao todo foram 71, o suficiente para ocasionar essa grande revolução. Para se ter uma ideia, Duke Ellington, considerado tão importante quanto, compôs cerca de 2 mil temas.



O vídeo acima é de Monk e seu quarteto, tocando sua composição "Round Midnight", a música mais regravada de sua carreira. Foram dezenas, quase centena, de artistas do jazz que fizeram seus covers em homenagem ao pianista.


Hoje ele continua tido como insuperável e é cada vez mais reverenciado por críticos, músicos e amantes do jazz.

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